À princípio, eu não respondi a sua pergunta. Pois o sujeito estava completamente certo sobre a minha condição. Eu tinha deixado planos, muitos planos, lá… na Terra. Não. Essa história que eu tinha morrido e vindo parar no céu não descia goela abaixo. Perguntava-me todo o instante o motivo de ter acabado dessa forma. Mas, pensando bem, soaria tão deseducado não responder a pergunta daquele tal conselheiro ao qual eu havia sido encaminhado. Esforcei-me para abrir a boca. — Meu sonho… — Foi a única coisa que saiu de lá. Foi a única coisa que eu, verdadeiramente, deixei para trás, já que o resto… e ocorreu-me o meu pensamento egoísta. Deixei algumas pessoas… também.
E como se ele adivinhasse o que eu estava sentindo lá no fundo de meu coração, ele me guiou até um lago e mostrou imagens do que eu abandonei lá embaixo. Surpreendi-me pelo quanto que o meu enterro foi lotado. Não passava pela minha cabeça que eu fosse tão querido nem a falta que eu faria pra Derek e Delilah. Talvez eu tivesse sido uma espécie de figura paterna pra ele. Sim. Aquele abraço só podia significar isso…
Talvez… ele estivesse sentindo que eu iria…
O conselheiro, que, agora eu percebia que era mais do que um simples espírito, era um anjo, falou alguma coisa sobre Derek e si próprio em relação a mim. Eu, porém, ignorei a sua voz. Pois eu precisava achar uma maneira de voltar para casa, para as pessoas, as que me amavam verdadeiramente, e para o meu sonho.
Nisso, eu tive uma ideia. Não sabia se funcionaria ou não, enfim… não importava pra mim. Eu pulei naquele bendito lago, como um idiota, eu, simplesmente, me lancei sobre o espelho d’água com um receio de que meu corpo iria estabacar-se contra superfície, mas atravessei-a e confidenciei-lhe o meu desejo: queria voltar à vida. Então a velocidade aumentou e causou a perda gradativa dos meus sentidos. Podia ouvir ao longe, o anjo chamar meu nome e bater suas asas até que eu caí na mais pura inconsciência.
(Source: thewrong-miracle)
— Isso mesmo. Você está morto — Disse ele com um sorriso piedoso. — E, como você não fez coisas medonhas em sua antiga vida, se encontra no céu ou, se preferir, mundo espiritual. — Só que isso não diminui a minha vontade de sentar a porrada naquela cara rechonchuda dele.
— Você… isso só pode ser uma brincadeira, não é? — Ele me respondeu com um balançar de cabeça. Sim. Minha única chance tinha acabado com aquele acidente. — E agora? — Acho que eu soei tão perdido quanto qualquer outro recém-chegado.
— Ora, sr. Smith, as pessoas ainda trabalham aqui. Dessa maneira, você será encaminhado até um conselheiro que irá providenciar-lhe um trabalho e uma moradia, de acordo com seus atos, assim como respondera todas as suas perguntas. — Ele foi tão educado que eu parei de sentir qualquer vontade violenta. Assim, eu fui deixado em uma fila por um brutamontes vestido de branco até que eu, após uma longa espera, conheci o meu assistente social.
Ele era um homem loiro, o famoso tipo angelical visto em filmes, com olhos azuis. Bonito. Muito bonito. Muito. Bonito. Confesso que se não fosse a aura de pureza, eu teria dado em cima dele. — Olá… — E eu nem estava animado pra isso mesmo.
(Source: thewrong-miracle)

Em um dos meus lares, era como eu me sentia ali, encontrei com um sujeito que parecia não parecia feliz com sua condição, algo comum por aqui, todo mundo parecia indisposto a ir pra frente, o que eu sempre achei um absurdo. Sorri pro recém chegado, notando seus ferimentos ainda semi-abertos.
O espirito é a essência da pessoa e não importa o que façamos, se a pessoa se sente presa aos seus cortes, a sua humanidade, a vida e tudo que isso significa, nosso esforço era em vão. Nós todos sabíamos disso, mas ainda assim limpávamos estas e tentávamos curar toda vez que chegavam. Eu peguei em sua mão, analisando o ferimento. Era pior do que eu esperava.
- Muitos planos deixados pra trás na terra? – Perguntei sinceramente, apesar de já sentir a resposta. Um dom meu, exclusivo, era sentir as paixões; Estas nem sempre eram por outras pessoas, humanos se apaixonavam por muita coisa, inclusive o material.
A paixão a fama não era estranha pra mim, mas ela geralmente era mais impura, fruto de avareza, ambição vil e não era o caso de Brandon Eli. Senti misericórdia do mesmo e o chamei para um passeio. – Me siga, Brandon Eli.
O levei até o lago, nele podíamos ver a terra, a vida que eles deixaram pra trás e que os anjos muita vezes invejavam, mas de maneira boa, dando valor e não querendo tomar pra si. Eu não era diferente, eu sabia como a vida humana deveria ser interessante, já que havia sentido tanta paixão através séculos tocando neles.
Assistimos um garoto humano chorar ao ouvir uma noticia da mãe, correndo pro seu quarto. Eu podia sentir a paixão deles quando assistia ao lago. Ele o tinha por Brandon, mas eu não revelaria isso ao recém chegado, isso poderia prender ele mais ainda a sua vida na terra. Eu não sabia porque isso tinha acontecido, raramente o lago revelava algo do tipo, a dor dos que ficaram não era algo pra se ter na consciência do espirito. – Eu e ele sentimos muito. Ele por você ter vindo, eu por você não desejar isso.
Coloquei a mão em seu ombro, se eu fosse humano, eu provavelmente regularia de altura com ele, mas arcanjos são maiores em todas proporções, além de termos nossas asas, semitransparentes atrás de nós. Eu ia sorrir e guia-lo até ver mais coisas, até ele se movimentar bruscamente e escapar, minhas asas abriram no reflexo e eu vi a agua do lago se espalhar. Em automático já me penalizava só de pensar: Maldição.
E não é que o menino, pela primeira vez, pareceu concordar com o espírito comemorativo de sua mãe e, inclusive, ousou fazer o brinde pela mãe, que era a anfitriã da comemoração, só que ela apenas sorriu e juntou-se a festa. Assim, todos nós tilintamos as taças e tomamos o nosso primeiro gole, fazendo um sonoro som de agrado, que, aliás, nos obrigou a cair em risadas.
Acho que nós bebemos mais duas taças e tagarelamos por algum tempo, antes que eu mostrasse o e-mail para os meus vizinhos. Só que, em minha retina, ainda queimava o momento que ele, Derek, tinha me abraçado… sinto-me pedófilo ao pensar em quanto ele tinha abraçado e cheirado a minha pele. Afinal, eu não sou idiota. E isso faz muito sentido. Fiquei com a pulga atrás da orelhas, mas eu resolvi não pensar muito nisso.
Assim que nós secamos a garrafa, eu abracei Delilah e Derek e deixei bem claro que a nossa amizade não mudaria um fio de cabelo. Quer dizer, se, dessa vez, tudo desse certo pra mim. Amanhã mesmo eu partiria para Nova Iorque. E queria que eles soubessem isso em primeira mão. Depois de muitos abraços, já que nós estávamos altos (e, em especial, Delilah). Eu fui pra casa a fim de contar a novidade pro meu namorado…
Infelizmente, ele recebeu a notícia de uma maneira fria. Como sempre…
Naquela noite, eu ainda tinha respondido o e-mail dos executivos da Interscope Records e participado de uma conferência via Skype. Eles ficaram animados, pois, de certa forma, eu era um artista talentoso – e dono de uma boa aparência – e, portanto, merecia uma chance verdadeira. Inclusive, eu ouvi muitos gritos de comemoração do outro lado da linha. Senti-me bem-vindo à gravadora no ato. No ato.
Segundo eles, o retorno dos New Kids From The Block às paradas de sucesso tinha abrido portas aos cantores de décadas passadas outra vez. Nunca pensei que eu diria isso, mas eu tinha apenas agradecimentos aos NKOTB por essa oportunidade.
Acho que não era o único, outros artistas também pensariam a mesma coisa.
Assim que eu combinei a minha ida à Nova Iorque para assinar o contrato e discutir outros detalhes sobre o meu retorno em pessoa, eu desliguei a chamada, coloquei em minha cabeça que eu ia fazer isso valer a pena e fui para a cama. E quem disse que eu consegui dormir naquela noite? Eu não consegui…
De qualquer forma, eu peguei o meu carro e fui pela manhã desprovido de um cansaço adequado para uma viagem de quatro horas. E justo quando eu pensei que eu tinha tudo em mãos para tornar o meu sonho realidade, a chance escapou pelas minhas mãos. Talvez se eu tivesse… não tem mais retorno para mim.
O primeiro sinal, que eu havia notado em mim, foi a vista embaraçada… então eu senti muito sono e, ainda que eu tivesse ligado o rádio, apaguei e, ao recobrar meus sentidos, bati em um poste. Não sabia a velocidade exata, mas foi o suficiente para que eu caísse nos braços da morte. Não senti nenhuma dor, incômodo ou, sei lá… foi completamente indolor. Apenas abracei a morte em retorno. E quando eu me dei conta, eu estava deitado em uma cama em um lugar completamente iluminado, que lembrava um hospital, e um enfermeiro cuidava de mim.
(Source: thewrong-miracle)
Minha mãe estava animada a toa, como quase sempre, qualquer coisa animava ela. Os Lakers ganharam! Os Knicks ganharam! Não importa o time, qualquer coisa acontecia e ela já se animava. Eu não sou muito fã disso. Ela acaba gastando muito com isso, mas eu melhorei a minha cara quando entendi o que causara a festa da vez.
Esse era um bom motivo. Sorri animado e abracei apertado meu vizinho, mais apertado e por mais tempo que deveria, também, não era pra menos, seu cheiro, sua pele… Ai, respirei fundo e me controlei, me distanciando dele e pegando uma taça. – Ao novo contrato do Brandon!
Sorri, oferecendo um brinde e roubando a oportunidade dos dois de o fazerem, sem nem pensar nisso. Tudo que eu sabia era que eu estava muito feliz por ele. Ele ia poder gravar mais músicas, como ele tinha dito que queria tanto na vez em que comentamos sua curta carreira na indústria musical e talvez ele pudesse abrir caminho pra mim no futuro se fizer sucesso. Todos ganham no final e eu comecei a pensar em algo a mais que poderia ser uma boa comemoração.
(Source: theright-kind)
E não demorou para que Derek descesse as escadas e recebesse-me com o seu jeitinho tímido e precavido. Notei que eu não era a única vítima do calor, ainda que aquela cozinha estivesse bem arejada, e, bom, eu não reparei muito em sua bermuda nem a forma que a peça de roupa deixava o seu volume bem evidente. Ok. Eu reparei… mas ele era o filho da minha vizinha. Ele é o filho da minha vizinha, lembrei-me mais uma vez para que a minha cabeça entre as minhas pernas ficasse com isso bem gravado em sua memória.
Apenas sorri e o cumprimentei, do mesmo jeito, quer dizer… se não fosse uma leve flexãozinha de bíceps e abdômen para me mostrar ao mais novo.
— Boa noite.
E eu nem tive tempo de responder a sua pergunta, já que Delilah voltou com uma garrafa de champanhe e taças. — Ah! Eu não achei o vinho, mas eu achei esse champanhe que eu estava guardando para uma ocasião especial. Talvez eu estivesse adivinhando essa notícia! Que fantástico, que fantástico! — Ela estava tão feliz quanto eu, e isso me deixou muito feliz. Mas o pobre Derek ainda ficou com a cara de bunda ao imaginar do que se tratava toda aquela comoção.
— Eu fui chamado pela Interscope Records, a gravadora da Lady Gaga, para gravar um albúm! Isso não é mesmo fantástico? — Expliquei pro garoto e agradeci a taça de espumante que Delilah tinha feito questão de abrir com toda uma pompa de festa de fim de ano. Quero dizer, com estouro e tudo o mais.
(Source: thewrong-miracle)
Eu tinha acabado de tomar um banho longo e gostoso, após ver Brandon chegar do apartamento pela janela. Eu sei que pode parecer meio perseguidor eu saber o horário que ele chega a casa e ficar esperando, mas… É melhor da época em que eu quebrava as coisas aqui de casa pra poder o chamar pra consertar. E sim, eu já fiz isso, eu era um adolescente estúpido.
O caso é, eu estava me secando e me controlando pra não me animar de novo lembrando do meu vizinho quando minha mãe me chamou. Respirei fundo, me acalmei, coloquei uma cueca preta e descendo pra ver o que ela queria. Quando me deparei com o moreno sorridente na cozinha, eu quase soltei um grito, antes de correr de volta do meu quarto, respirando fundo e tendo que ir atrás da minha bombinha de asma antes de colocar uma bermuda e descer fingindo naturalidade.
- Boa noite! – Disse entrando na cozinha sem olhar pra Brandon, senão ficaria hipnotizado e indo direto até a geladeira, procurando algo pra beliscar. – O que acontece? – Perguntei curioso, lembrando que tinha esquecido de por os óculos, o que era uma coisa boa, talvez eu ficasse mais bonito pra ele e se eu não enxergar bem ele, eu não vou encarar ele, né?
(Source: theright-kind)
Plena sexta-feira. Pontualmente, dezenove horas. Eu tinha batido o cartão em meu trabalho, chegado em casa e tomado um banho. Assim que eu fiz isso, eu já saí de meu banheiro, que, aliás, era grande e bem decorado, pensando que os meus dias continuariam tediosos. Quero dizer, o esquema de trabalho das nove às dezessete horas, a diversão desregrada pelo final de semana a fim de esquecer toda aquela porcaria de semana de trabalho, o sexo com estranhos ou o namorado chato, que, bom, eu já estava querendo me livrar e cansando-me de chifrá-lo; não me julgue, mas ele é péssimo de cama. Então, eu posso dizer com todas as letras: eu não esperava mais, mais do mesmo em minha vida. Talvez eu tivesse a impressão de que eu já sabia o meu futuro enquanto eu ligava o meu laptop e secava meus cabelos. Acessava a minha conta de e-mail como eu a acessava todos os dias. Passei por algumas mensagens de minha assistente, contendo memorandos, algumas mensagens de amigos que estavam em outros estados até que eu me deparei com aquele remetente. Coloquei a mão na boca, tampando um grito abafado, pois, no assunto, eles diziam com letras garrafais: IMPORTANTE! E não pareciam uma mensagem comercial. Cliquei e passei os olhos pelo conteúdo, rapidamente, e acabei soltando um grito alto e, diga-se de passagem, másculo, correndo com as minhas calças moletom até a casa da vizinha, Delilah, e batendo em sua porta com uma vigorosidade estranha.
Não sei o que me deu… acho que era a felicidade, a felicidade nos faz passar por esses momentos constrangedores. Enfim, eu sei que eu não esqueceria a cara de Delilah quando ela me viu sem camisa em sua porta com um sorriso de orelha a orelha.
— Mas o que é isso, Brandon?! — Ela exclamou a pergunta, fazendo aqueles vinquinhos entre as suas sobrancelhas surgirem e darem certo charme àquela face vivida. Então, eu pensei que se eu não fosse gay, talvez eu me casaria com uma mulher como Delilah. Que seja. Eu abracei e, certamente, isso a deixou mais confusa e assustada. — Brandon… — Ela gritava e dava um tapa em meu ombro até que eu a botei no chão e beijei sua boca.
— Eu consegui, Delilah, eu consegui a minha chance! Eu acabei de receber um e-mail da Interscope Records! Não é o máximo?! Eu vou gravar o albúm da minha vida! — No início, ela ficou meio boquiabeta com o meu beijo; em seguida, foi com a minha notícia; finalmente, ela começou a gritar e pular comigo, chamando a atenção da vizinha inteira.
— Oh… Isso merece uma comemoração! — Disse ela, arregalando os olhos e puxando-me pelo braço para a sua cozinha. — Derek! Desce! A gente vai comemorar uma coisa! — Gritou para o filho dela, um menino adorável, que devia estar em seu quarto. — Aonde foi que eu deixei aquele vinho, meu Deus? — Nunca a vi tão aflita para achar uma bebida alcoólica.
(Source: thewrong-miracle)